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TERRITORIEDADES

ReviewReviewReviewReviewReviewNov 2, '04 1:43 AM
for everyone
Category:Movies
Genre: Drama
Brevíssimas anotações à  margem do filme

A câmera desce veloz arrastando os créditos iniciais pela estrutura de aço da Torre Eiffel atá encontrar o jovem norte-americano na calçada, apressado a caminho da Cinemateca... para celebrar Samuel Fuller em Paris (quando o cinema norte-americano era ainda "grande cinema").
A vertigem desse filme magní­fico (declaração de amor ao cinema e ao sonho libertário de 68 que não cessa de se acabar) começa aí­ e nos arrasta para a experimentação e descoberta dos corpos e do sexo emergindo das barricadas do desejo de 68 (quando, contra o impossível de desejar, desejar o impossível tornou-se urgência), pondo em série, num mesmo fluxo, cinema norte-americano + hendrix + joplin + trenet (expor o corpo ao som de La mer, irresistível afirmação) + piaf para indicar de onde saí­mos, puritanismo surpreso + um Édipo um tanto gordo se esquizando sem papai nem mamãe entre as paredes do apartamento atravessadas pelos ruídos das ruas - vozerios, explosões e gritos que chegam pelas janelas - e caminhando para a própria dissolução nas suas barricadas.
Possível parte final de Novecento, mas principalmente retomada de Beleza roubada, disse Bertolucci, e não, como alguns pretenderam ver, retomada do tb magní­fico Último Tango em Paris (um outro tom, embora tb um norte-americano, não-inocente e angustiado-em-busca-de-uma-terrinha que se encontra com uma parisiense se desterritorializando de papá via Francis Bacon + o sax de Gato Barbieri + um outro olhar, mais severo e inquiridor, para o cinema).
Não me arrependo de nada, canta piaf enquanto os créditos correm ao revés (subindo, em movimento inverso ao da abertura), tendo como imagem a desolação despovoada da barricada incendiada cindindo a rua. Cinema-sonho? cinema-psicanálise? Puro cinema. Puro Bertolucci.

3 Comments
vicamf wrote on Nov 2, '04
La mer

(Charles Trenet)
La mer
Qu'on voit danser le long des golfes clairs
A des reflets d'argent
La mer
Des reflets changeants
Sous la pluie

La mer
Au ciel d'ete confond
Ses blancs moutons
Avec les anges si purs
La mer bergere d'azur
Infinie

Voyez
Pres des etangs
Ces grands roseaux mouilles
Voyez
Ces oiseaux blancs
Et ces maisons rouillees

La mer
Les a berces
Le long des golfes clairs
Et d'une chanson d'amour
La mer
A berce mon coeur pour la vie.

Merci Valter !
Virgínia
valterodrigues wrote on Nov 2, '04, edited on Nov 17, '04
Você já viu o filme, Virgínia? É belíssimo, como, aliás, todos os filmes de Bertolucci. A seqüência em que a garota francesa (eu e minha dificuldade de guardar nomes...) se despe perante o irmão e o amigo americano ao som de La Mer é um de seus momentos intensos. Nada do clichê "uma mulher se despe para os homens", ao contrário, é ela e a música. O nu e o sexo nesse filme são sempre de tal forma pertencentes ao meio que passamos a vê-los como "naturais", "inocentes". O filme jamais cai no vulgar, nessa vala tão comum do cinema comercial, nem cai no paradisíaco dos sonhos da contracultura hippie. Não à toa o filme teve cenas cortadas nos EUA. Deve ser sido excessiva para a moral puritana sua franca celebração dos corpos. Uma celebração que é uma política desses corpos que sonham tendo como fundo o desejo político-libertário das barricadas de Paris de 68. Algo, aliás, que o filme "comenta"/mostra o tempo todo, é o puritanismo norte-americano que fica surpreso, de mãos atadas, que se recusa a olhar, se apavora e se constrange, nas primeiras reações do amigo americano ao casal de irmãos sempre tão à vontade em sua nudez um com outro. As situações tomam depois outro rumo (seu próprio rumo), mas isso deixo para você descobrir no filme..
judias wrote on Oct 14, '05
Cinema-sonho? cinema-psicanálise? Puro cinema. Puro Bertolucci.
Um precioso regalo aos cinéfilos!

Bela análise!

bjs
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