A câmera desce veloz arrastando os créditos iniciais pela estrutura de aço da Torre Eiffel atá encontrar o jovem norte-americano na calçada, apressado a caminho da Cinemateca... para celebrar Samuel Fuller em Paris (quando o cinema norte-americano era ainda "grande cinema"). A vertigem desse filme magnífico (declaração de amor ao cinema e ao sonho libertário de 68 que não cessa de se acabar) começa aí e nos arrasta para a experimentação e descoberta dos corpos e do sexo emergindo das barricadas do desejo de 68 (quando, contra o impossível de desejar, desejar o impossível tornou-se urgência), pondo em série, num mesmo fluxo, cinema norte-americano + hendrix + joplin + trenet (expor o corpo ao som de La mer, irresistível afirmação) + piaf para indicar de onde saímos, puritanismo surpreso + um Édipo um tanto gordo se esquizando sem papai nem mamãe entre as paredes do apartamento atravessadas pelos ruídos das ruas - vozerios, explosões e gritos que chegam pelas janelas - e caminhando para a própria dissolução nas suas barricadas. Possível parte final de Novecento, mas principalmente retomada de Beleza roubada, disse Bertolucci, e não, como alguns pretenderam ver, retomada do tb magnífico Último Tango em Paris (um outro tom, embora tb um norte-americano, não-inocente e angustiado-em-busca-de-uma-terrinha que se encontra com uma parisiense se desterritorializando de papá via Francis Bacon + o sax de Gato Barbieri + um outro olhar, mais severo e inquiridor, para o cinema). Não me arrependo de nada, canta piaf enquanto os créditos correm ao revés (subindo, em movimento inverso ao da abertura), tendo como imagem a desolação despovoada da barricada incendiada cindindo a rua. Cinema-sonho? cinema-psicanálise? Puro cinema. Puro Bertolucci.